Em muitas PMEs, a inteligência artificial (IA) ainda é percebida como algo distante demais para transformar o trabalho do dia a dia. A francesa Limova segue o caminho oposto: em vez de uma IA “para conversar”, a startup aposta em agentes capazes de executar tarefas práticas - do atendimento telefónico às redes sociais. Em apenas um ano, a empresa já ultrapassou 5.000 clientes e agora mira a expansão internacional.
A adoção de IA pelas empresas cresceu muito: geração de textos, criação de imagens, automação de rotinas. Ainda assim, nas microempresas e PMEs, o cenário costuma ser mais complexo do que as promessas sugerem.
Por que a IA ainda parece abstrata nas PMEs
“Todo mundo fala de IA, mas pouquíssimas pessoas sabem de verdade o que fazer com isso no dia a dia”, diz Yoan Drahy, cofundador da Limova, em entrevista ao Presse-citron. Segundo ele, principalmente entre microempresas e PMEs, os dirigentes enxergam o potencial, mas não têm tempo para se capacitar, nem recursos para integrar soluções - e, em alguns casos, faltam referências básicas para decidir por onde começar.
O problema, na visão do executivo, é que as ferramentas disponíveis são poderosas, mas quase nunca foram desenhadas para as limitações operacionais de estruturas pequenas. “O ChatGPT é excelente para escrever um texto ou montar uma tabela. Mas ele não atende o telefone por você, não publica os seus posts no Instagram, não gerencia os seus e-mails de clientes”, detalha.
Com isso, em muitas PMEs, o peso da burocracia continua alto. “Ou você tem equipes em todo lugar, ou faz tudo sozinho”, resume. A IA, por sua vez, frequentemente fica restrita a usos pontuais, sem mudar de fato a forma como a empresa se organiza - apesar de existir um enorme potencial para atacar as tarefas mais demoradas. É justamente essa lacuna que a Limova diz querer preencher.
Agentes de IA da Limova para o dia a dia de microempresas e PMEs
A startup de Nice não promete uma inteligência artificial para “bater papo”, e sim agentes capazes de executar tarefas concretas, conectados diretamente às ferramentas usadas diariamente. “Nós não vendemos uma IA que fala. Vendemos uma IA que faz”, resume Yoan Drahy.
Atender chamadas, filtrar e encaminhar ligações, preparar rascunhos de e-mails, publicar e agendar conteúdos nas redes sociais, gerar artigos para blog ou automatizar ações recorrentes: cada agente é desenhado para uma função ou área específica. “Você pode dizer: “Crie um post, publique no LinkedIn às 18 horas, no Instagram às 19 horas, no TikTok às 20 horas”. E pronto”, exemplifica.
No lado técnico, a Limova não criou um modelo próprio de linguagem. A empresa se apoia no Claude, a IA da Anthropic, que ela considera “o modelo mais confiável e mais coerente hoje”. Para o cofundador, o diferencial está em outro nível: estruturação, integrações com ferramentas de trabalho e automações. “O Claude sabe escrever. Mas não sabe se conectar à Meta, agendar um post ou colocar em funcionamento uma central telefónica. Foi exatamente essa ponte que nós construímos”, continua.
Esse posicionamento, segundo ele, a separa dos grandes nomes do setor. “A OpenAI é extremamente forte em assistência pessoal. Mas eles não oferecem agentes capazes de gerenciar os seus processos de negócio”, afirma. A Limova, portanto, não tenta disputar espaço com o ChatGPT e semelhantes; a aposta é em outro segmento: agentes autônomos B2B integrados ao centro dos fluxos de trabalho.
Dentro dessa estratégia, a startup também enfatiza soberania e proteção de dados. As informações ficam hospedadas na França, são criptografadas e não são usadas para treinar modelos. “Nós não usamos isso para melhorar a nossa IA. Esse não é o nosso modelo de negócios”, garante o executivo - um ponto que, segundo ele, pesa para muitas profissões sensíveis.
Crescimento relâmpago
Criada em 2024, a Limova saiu de 150.000 euros para 3 milhões de euros de faturamento, captou quase 5 milhões de euros e multiplicou o time por dez, passando de quatro para quarenta e cinco colaboradores. Hoje, a empresa diz ter mais de 5.000 clientes distribuídos por trinta e cinco países.
Para o cofundador, o ritmo reflete a urgência do mercado. “A gente atende uma necessidade muito concreta. As empresas querem uma IA útil, não demonstrações”, diz. Depois de ganhar tração na França e avançar em mercados como Bélgica, Canadá e Suíça, a startup prepara a próxima etapa. “Nossa prioridade são os Estados Unidos e vários grandes mercados europeus, como Espanha, Alemanha e Reino Unido”, aponta.
Automação total: o próximo passo do produto da LIMOVA
No produto, a LIMOVA afirma querer ampliar ainda mais o nível de automação. A meta é que os agentes executem tarefas de forma totalmente autônoma, sem depender de solicitações humanas diárias. “Amanhã, você define o que o seu agente deve fazer na semana, ele executa e depois te entrega um relatório”, explica o executivo.
Esse avanço, inevitavelmente, traz discussões sensíveis sobre o futuro do trabalho. Ainda assim, Yoan Drahy tenta reduzir a preocupação: “Hoje, os agentes de IA não substituem as pessoas. Eles permitem que elas se concentrem em tarefas de maior valor agregado”, afirma. Na leitura dele, a IA pode inclusive impulsionar crescimento e contratações. “Nós passamos de quatro para quarenta funcionários graças à IA”.
A mensagem, para ele, é direta. “Eu aconselho todos os patrões a colocar IA em todo lugar”, reforça - não para eliminar vagas, mas para ganhar tempo e produtividade e, no fim, criar novos empregos.
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